Como um único post transformou a conversa sobre clima
Após um único post de Donald Trump, a proporção de comentários negacionistas saltou quase 650% - e desembarcou no Brasil
Nas edições anteriores…
#16 As 6 engrenagens da nova máquina de desinformação climática
#15 Desinformação climática na guerra: o clima virou o “problema de depois”
Esta edição chega para você com atraso. Em maio, fomos surpreendidos com a suspensão da comunidade do Mentira Tem Preço (sim, nome homônimo ao nosso programa de integridade) no Instagram, do grupo Meta. Sem aviso, sem notificação. A suspensão ocorreu depois de um vídeo nosso, combatendo desinformação, viralizar. Perto de alcançar 100 mil views orgânicos e com milhares de seguidores novos… fomos tirados do ar.
Descobri que não estávamos só: dezenas de perfis — jornalísticos, de organizações da sociedade civil que trabalham com clima e com LGTBQIA+ — estão, de alguma maneira, sendo calados.
Passei a reuni-los para entender o cenário, compartilhar as lições e para aprender coletivamente ao lado de outras organizações — e aqui vai publicamente o obrigada que já fiz no particular, ao Sleeping Giants Brasil e ao Ctrl+z.
Se conhecer alguém vivendo este apagamento forçado (ou pensando soluções), é só responder esta mensagem com um Oii. Precisamos de mais ‘senso formigueiro’ — a reação em massa para repelir ameaças.Nosso perfil foi liberado em 1 de junho. Agora conseguimos compartilhá-lo por aqui — e já publicamos as lições aprendidas enquanto tentávamos reativar a comunidade sem não ter tido, até agora, uma resposta humana do outro lado.
Resumo:
esse mês teremos dobradinha de Oii - me aguardem;
em breve, MTP em mais um canal. Não podemos ser apagados assim.
Estudo de caso:
Quando um post vira uma crise global de desinformação
Maio foi o mês de Donald Trump no Brasil. E não foi só porque as redes sociais brasileiras ficaram encantadas com o “Búfalo Trump”, animal que escapou do sacrifício em Bangladesh porque divide o penteado com o presidente americano. O caso do búfalo ficou entre as notícias mais lidas dos portais brasileiros.
Achou parecido? Sei não, hein… (reprodução da internet)
Trump foi o assunto do mês no Brasil porque recebeu na Casa Branca os dois principais concorrentes nas eleições presidenciais de outubro: esteve com Lula, o atual presidente e líder nas pesquisas, no dia 7 de maio, e com Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (preso por tentativa de golpe de estado) e segundo colocado nas pesquisas, no dia 26.
Mas Trump também foi a estrela das redes sociais brasileiras longe dos holofotes, e apitou várias vezes o alerta dos nossos monitoramentos. Tudo por causa desta postagem em sua rede social, que alcançou 4 milhões de views, feita no dia 16 de maio, entre seus encontros com nossos presidenciáveis, e compartilhada pela conta oficial da Casa Branca no Twitter:
A desinformação climática de Trump compartilhada na conta oficial da Casa Branca do Twitter (@WhiteHouse) teve mais de 4 milhões de views até essa publicação.
Um post muda tudo?
Um parceiro querido que temos na CAAD, o Friends of the Earth, do Reino Unido, publicou uma campanha com posts no Facebook sobre o trabalho que fazem pela ação climática.
Após um único post de Donald Trump, a proporção de comentários negacionistas saltou de 6,5% para 48,6%, um aumento de quase 650% - ou 7,5 vezes mais desinformação climática nas discussões online.
Para qualquer especialista em ciência do clima, a mensagem acima é um jogo de diversos erros. Nós não somos especialistas em ciência do clima, mas fomos apurar para explicar:
O “comitê TOP” do clima da ONU, o IPCC, não é responsável pelo modelo citado, o RCP8.5, e nunca disse que o modelo está errado, quanto mais “ERRADO! ERRADO! ERRADO!”;
O RCP8.5 era um dos quatro cenários climáticos de referência (“representative concentration pathways”, ou RCP) criados no início dos anos 2010 para ajudar cientistas a estudar diferentes futuros possíveis. Ele nunca foi tratado pelos cientistas como uma previsão do futuro (até o ano de 2100), mas como um cenário extremo, uma extrapolação, para estudar riscos;
Ainda em 2017, os cientistas passaram a usar uma nova geração de cenários chamada SSPs (“shared socioeconomic pathways”). Em vez de olhar apenas para as emissões de gases de efeito estufa, esses modelos também consideram fatores como crescimento populacional, desenvolvimento econômico, desigualdade, educação, tecnologia e políticas públicas para projetar diferentes futuros possíveis;
Cientistas continuam afirmando que o aquecimento global é real, causado principalmente pela atividade humana e representa riscos graves para sociedades e ecossistemas. O fato de um cenário extremo ter ficado menos provável não significa que a crise climática acabou ou que as projeções científicas estavam “todas erradas”. Pelo contrário: com o avanço da tecnologia, as previsões estão cada vez mais precisas e, por isso, as medidas para evitar o pior são ainda mais urgentes.
A má notícia é: nada disso importa na internet, principalmente entre quem se beneficia com muito alcance e muito engajamento negando as mudanças climáticas.
Nos Estados Unidos, segundo o CarbonBrief, o post de Trump foi repercutido como verdade por veículos de notícia como FoxNews e New York Post. E quem trabalha com desinformação climática vê impacto direto na percepção das pessoas quando coisas assim acontecem.
No Brasil, vimos as redes (principalmente o ex-Twitter) inundadas com a desinformação de Trump. Abaixo, alguns exemplos.




Um dos posts teve mais de 10 mil visualizações.
Vampiros de energia
Um novo relatório do Greenpeace Austrália alerta que a expansão acelerada dos data centers voltados à inteligência artificial pode aumentar a dependência de combustíveis fósseis, elevar as emissões de gases de efeito estufa e pressionar redes elétricas já sobrecarregadas.
Já estamos discutindo o mesmo problema aqui no Brasil. Novidades em breve por aqui.
E os impactos não são só ambientais…
A ONU, em parceria com a Conscious Advertising Network (CAN), publicou um novo documento com um alerta: a adoção acelerada da inteligência artificial na publicidade pode aprofundar a crise global de integridade da informação. O relatório destaca riscos como a amplificação de desinformação, a falta de transparência nos sistemas automatizados de compra de mídia e a pressão crescente sobre o jornalismo independente.
O mapa do perigo
Pesquisa sobre riscos de derramamento de petróleo publicada na revista Conservation Letters por pesquisadores do ICMBio, da Universidade do Porto e da Universidade Federal da Bahia identificou que as áreas entre o Ceará e o Rio Grande do Norte concentram o maior risco de impactos ambientais na Margem Equatorial brasileira. Com base em simulações da trajetória do óleo, o estudo concluiu que eventuais derramamentos podem causar danos a bancos de pradarias marinhas, manguezais, recifes de corais e bancos de rodolitos, formações compostas por algas calcárias.
Se você é leitor antigo, já sabe o que a principal exploradora contou para a comunidade local, né? Spoiler: nada sobre riscos.
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